Linda Lira

on sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Eu paro, olho, ouço-a cantar
A ela vamos apenas escutar
Suas notas belas a falar
Da vida a nos encantar

Eu vontade sinto de expressar
Meu sentimento preso, sem ar.
Poder a ela mostrar
A minha linda lira a cantar

Mas ela não cansa de esbanjar
Sua beleza, sua voz, ao luar
Que intenso está a brilhar

Não terei chance de contar
O que meu coração, há tempos, quer gritar:
Eu te amo, meu céu, meu doce, meu amar.

Na praia

Na praia, escuto silente
O sopro da brisa a falar
Das belezas do mar a cantar
A dor profunda do seu corpo quente

Na praia, escuto silente
A dor profunda embalar
Sem nem mesmo vacilar
O acalanto, até então, contente

Na praia, agora bem vejo
A antes escura insatisfação
Tornar-se o mais belo azul, pejo

Na praia, agora bem vejo
A brisa vir em meu coração
Dizer, sem dor, eu te desejo

Mulher

Sempre atento, a vejo
Em sala, límpida e elegante
A despertar forte desejo
Em coração errante

Que aproveita o ensejo
Pra sair do abismo, cambaleante
A esperar que o cortejo
Da bela luz surja deslumbrante

Num envolver bem afável
De seu espírito solitário
Neste céu, em trevas, implacável

Onde ela, no itinerário
Da vaguidão indesejável
Atua, feito heroína, contra o calvário

2010

on sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Mais um ano novo. Vai-se o passado e vive o presente. Viva o presente. Pense no futuro. Sonhe! Jamais deixe de sonhar. Lute! Jamais deixe de lutar. Descanse, afinal, não somos de ferro!

Nesse Mundo em que vivemos, turbulento, caótico, agitado, inquieto somos constantemente desafiados a batalhas intermináveis às vezes. Vocês se deparam com as vicissitudes atormentadoras, perturbadoras, desgastantes e se vêem diante de uma pergunta: será que posso vencê-las?

Com plena certeza digo-lhes: sim, vocês podem. Mas como pode ter essa certeza? Simples. Olhem ao seu redor e observem as pessoas. Eu diria que é impossível não terem amigos. Vocês os têm. Durante um ano, não caminhamos sós. Além Dele, temos nossos (as) companheiros (as) que nos apóiam para o que der e vier. Dão força a nossa força mesmo que não digam nada, mesmo que não façam nada. Tacitamente, há a reciprocidade dos sentimentos. Quando existe a confiança, um único olhar revela os segredos mais recônditos da alma. Não tenha medo!

Durante um ano, muita coisa pode acontecer, assim como muita coisa não pode acontecer. Isto vai depender de você. Se ficar estático, um ano vão passará. Você talvez não se depare com as problemáticas que emergem naturalmente quando desafiamos a vida. Já quando nos movimentamos, mesmo sendo só um pouquinho, conquistamos muita coisa.

A todos que lerem este texto, peço, apenas, que tenham paciência. Não vamos choramingar pelo fato de não termos alcançado o que realmente queríamos para agora. Você tem toda uma vida. Ah, mas eu posso morrer amanhã, daqui a alguns minutos, não sei! Já está pensando em morrer? Não pense na morte, pense na vida. A morte está em algum lugar desconhecido. A vida está bem ao nosso lado, todos os dias. Pense no presente que você quer dar a ela e valorize suas belezas. Ela quer nos mostrar suas magníficas paisagens.

Por isso viva pela vida!

Meus amigos

on quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
"Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! A alguns deles não procuro, basta saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida...mas é delicioso que eu saiba e sinta que eu os adoro, embora não declare e os procure sempre..." (Vinícius de Moraes)

Momentos únicos, momentos de felicidade, de alegria. Estes são deveras importantes para nós, para enriquecer nossa vida, para derrubar as nossas tristezas e para nos ensinar que a vida é importante, repleta de pessoas importantes, de amigos. Mesmo que seja difícil ou que não seja fácil dizer "eu te amo", "você é muito importante para mim", é sabido, está intrínseco em cada um de nós que tais frases são ditas em surdina com um clamor elevadíssimo. O olhar, as palavras, os pequenos gestos quase imperceptíveis tem um poder de voz incrível. Por isso, não se deixem levar pela onda frenética dessa vida louca e corrida. Quando puderem, vejam seus amigos o máximo possível!

A luz

on sábado, 8 de agosto de 2009
Que caverna escura, suja! Como vim parar aqui? Não me lembro. Para onde quer que eu olhe, só vejo trevas, nada mais. Apenas escuto estalidos. O que poderia causá-los? Talvez seja os morcegos. Morcegos! Detesto morcegos, o que faço, para onde me dirijo? Sinto meu coração palpitar muito rápido, meu suor frio banhar-me, meu corpo tremer. Quero andar, mas não consigo. Vou sentar um pouco, talvez me acalme.
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O que é isso! Socorro, alguém... alguém me ajuda! Ele está aqui para me atormentar. É ele, eu tenho certeza: o Medo. Não levante a cabeça, não levante, não levante, não levante, não levante. Que droga, será mesmo o meu fim? Espero que não. Que estranho, as minhas costas parecem estar encostadas em algo confortável. As pedras incômodas não se encontravam ali. O que poderia ser? Essa pequena curiosidade meio que me tranqüilizou. Levantei-me. Deixe-me ver, melhor dizendo, sentir. Hum, não poder ser, é um caixão!! Será que tem mais... dois, três, quatro... mas que lugar é esse, eu quero sair daqui, eu... minha respiração... sinto-me sufo... ca ...do, al...guém...
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Estou deitado. Provavelmente, devo ter morrido. O que é aquilo? Minha vista está embaçada, mas tenho certeza de que é uma luz. Eu tenho que me aproximar. Vamos, corpo desgraçado, vamos! Não adianta, não se move. Uma lágrima? Não, não vou chorar, não vou... uma gota significaria entregar a vitória ao Medo. A dor é grande, muito grande, mas vou resistir.

A luz está se aproximando; a dor diminuindo. Como pode? Será alguém com uma lanterna apenas? Não, não é isto. Essa luz tem algo diferente das outras luzes. Sinto-a transpassar todo o meu corpo. Ela parece purificar tudo ao seu redor. Preciso chegar perto, chegar perto.

Então, esta é a origem da luz. Agora, quero ficar nesta caverna. Ficarei deitado ao seu lado. Não vou deixar ninguém machucá-la. Neste mundo em que vivemos, até mesmo você pode salvar uma vida, pode acalmar corações atormentados, pode fazer milagres. Quando é que eu poderia imaginar o seu surgimento aqui, onde a noite é eterna? Agora, posso sorrir e ficar em paz. Obrigado, querida Rosa Branca.

Receita

on terça-feira, 12 de maio de 2009
Bom dia, boa tarde, boa noite. Você não está se sentindo bem? Seus dias tem sido um saco – vazio, murcho? Andou mal de saúde? Bem, preste atenção.

Aqui, nesta panelinha branca, você irá ver os ingredientes e o preparo. É bastante simples. A primeira coisa a fazer é acreditar que vai dar certo. Em seguida, deposite naquela a agonia, os medos, as raivas, os choros, as irritações e agite-os. O cheiro emanado não será nada agradável. É assim mesmo, falta ingredientes.

Coloque, para finalizar, suas risadas, suas idiotices, seus sonhos, seus prazeres e seus desejos. Isso basta. Misture bem. Olhe para a panela branca. Sinta o cheiro, sinta a vida. Se o quiser agradável, é bastante simples: encoste a panela branca sobre o peito, feche os olhos, respire fundo... é só querer, é só acreditar.

Delicado

on quinta-feira, 19 de março de 2009
São 6 horas. Acordo-me com o irritante tocar das panelas no fogão, com o arrastar de chinelas da dona de casa, com o ruído mais perturbador do motor do carro ou da moto do vizinho. Ponho-me sentado na cama a adquirir, pouco a pouco, a esperteza natural de cada indivíduo ao raiar do sol, que não vejo, já que durmo num quarto fechado. Durante alguns minutos, fico a pensar na vida, em como será meu dia.

Meu nome é Bernardo. Minha mãe, analfabeta, cuida de mim sozinha sem medir esforços em dar todos os materiais necessários a minha formação intelectual. Em meu quarto, uma gama de livros e revistas encontram-se desorganizados. Os mais lidos são as revistas em quadrinhos. Mamãe, mesmo ignara, sabe da incapacidade do material de transmitir informações decentes. Costuma dizer: “Meu filho, vai estudar, fica só nesses quadrinhos!”. Eu ouvia fingindo não ouvir. As minhas notas no colégio, quase sempre, beiravam o dez. Ainda assim, não adiantava. Não podia reclamar, pois a preocupação materna sentir-se-ia ofendida e triste. Simplesmente, seguia naturalmente a rotina pacata de estudante. Acordava seis horas, chegava ao colégio às sete e voltava a casa às doze da manhã. À tarde fazia o dever de casa e à noite ia mergulhar nos quadrinhos. Estes, em sua maioria, tratavam de temas amorosos, situações constrangedoras entre amigos que terminavam namorando. Viajava bastante, imaginava-me no enredo ilustrado e imaginava-me tomando coragem para aproximar-me mais intimamente de alguma moça bonita do transporte público ou da minha classe. No entanto, nenhum acontecimento inédito desenrolava-se em minha vida. Às vezes, via o meu corpo no espelho mais morto do que vivo. Era como se tivesse nascido da própria terra, num parto forçado, escavado com minhas mãos. Já me via jazido, no chão do quarto, inerte, medroso, nervoso, pensando... Chega! Ficar nessa morbidez não me levará a lugar algum. Preciso tomar uma atitude o quanto antes! Havia decidido. Ia declarar-me a ela. Ela, tão cândida, tão quieta, sentada em sua carteira lá na frente, perto do professor. Seus olhos azuis eram hipnóticos. Diversas vezes, embriaguei-me vislumbrando seu corpo, suas pernas, sua barriga tão bem feita, sua... Ah! Como é linda esta mulher. Como é... Linda. E eu, será que sou lindo o bastante? Não possuo olhos azulados e um corpo muito esbelto. Eu acho haver nela uma afinidade por homens mais fortes, fortes o suficiente para suster e levar seu delicado corpo a um estado ébrio e delirante. Eu, infelizmente, sou fraco, quiçá, delicado feito ela. Desse jeito, não a faria adquirir o gozo pleno e satisfatório.

Certo dia, quando retornava a casa na “Topic”, vi uma garota delicada – lembrava-me aquela - sentada próximo ao motorista, longe dos outros passageiros suados, do odor pútrido, do aperto, do desconforto e do, de vez em quando, inevitável conspurcar do corpo das moças incautas, tocadas pela parte mais íntima dos homens. Alguns destes são dissolutos, não tentam respeitar a difícil privacidade delas. Eu procuro ficar distante por demasiado respeito. Contemplar é o que faço. O balouçar dos seios, a largura da cintura, a barriguinha bem trabalhada, os olhos, o nariz, a boca são características detalhadamente observadas. Porém, o que mais perscruto são suas ações, seus pequenos gestos, pois isso mostrará um pouco do seu interior, se é gentil, se é maldosa, se está calma, se está estressada. Afinal de contas, do que adianta ficar boquiaberta perante carnalidade exuberante, se ela não demonstra uma boa conversa, se ela não demonstra mistério. Este, para mim, é a pitada derradeira para finalizar o tempero da boa sensualidade.

Seu nome é Helena. Eu tinha pensado em entrar numa academia para adquirir um corpo forte, para assim carregá-la em meus braços. Mas não achei mais necessário. Usaria a minha aparência horripilante para testá-la. Se fosse legal, receber-me-ia; se não, ignorar-me-ia. Finalmente, tomei a decisão de ir até ela, aos poucos. Eu sentava lá no fundão da sala. Passei a sentar na carteira atrás dela. Durante uma semana, fiquei a observar as suas atitudes, a escutar suas conversas. Ela falava pouco. Uma de suas amigas convidou-a para ir a uma festa noturna. Ela não quis. Tratavam de assuntos pouco relevantes para mim. Por exemplo: o modo que determinada menina ficava ao usar um vestido, ou uma minissaia.

Terminado o período de observação, parti para o campo da ação. Intrometi-me num assunto relacionado aos namoros de pouca duração. Elas reclamavam da infidelidade, da indelicadeza e da ausência de romantismo. Perguntei a elas, quer dizer, afirmei a elas que ainda existe uma pequena parcela de homens fiéis, que... - uma delas me interrompeu: “Quem, não vejo um!”. Respondi firme: “Eu sou assim!”. Elas começaram a rir. Calei-me.

No dia seguinte, já esperava um olá de Helena. Enganei-me. Ela convidou-me para sair. Logo pensei: “Já?! Não era eu que deveria fazer tal convite?”. Sim, era. Estranhei. Aceitei. O local era sua casa.

Cheguei. Eu estava extremamente nervoso. Quis livrar-me dos pensamentos libidinosos, mas era quase impossível. Ele ergueu-se rapidamente e não queria relaxar. Se ela visse, seria o fim sem mesmo termos começado. Ela abriu a porta e pediu que eu ficasse a vontade, relaxado. Quando sentei no sofá da sala, a tranqüilidade distante pouco a pouco se aproximava. Ela gritou do seu quarto: “Bernardo, vem aqui!”. Em poucos segundos me encontrava sentado numa cadeira ao seu lado. Pedia-me a explicação de uma questão de biologia. Tentei explicar... não dava... vestia uma camiseta transparente, seus seios a mostra, tão lindos... uma minissaia... melhor seria ter ficado nua logo. Que visão esplêndida. Vislumbrava mais seu frágil corpo do que a profundidade de seu olhar. Ela deve ter percebido e deve estar pensando o quanto sou pervertido. Isso já não me importa. O que tiver de ser, será. Após o esclarecimento da dúvida, fomos assistir um filme. Ela deitou-se. Fiquei sentado na beira da cama. O filme acabou e ela disse: “Bernardo, já está tarde. É melhor você ir embora”. Tem razão, disse um pouco triste. Despedi-me. Quando dobrava a esquina, um carro passou por mim. Dentro havia três rapazes. Estacionaram em frente à casa de Helena. Nesta, eles entraram...

Um momento liberto

on terça-feira, 15 de julho de 2008
Corria de um lado para outro com uma capa preta, segurando uma espada, fazendo movimentos de vaivém com ela, pulava, gritava. Mais uma vez fazia uma de suas magníficas interpretações de personagens, seja de filme, seja de desenho.

Sentado no sofá da sala, livro na mão, tentava se concentrar. Lia um parágrafo, mas logo esquecia o que tinha lido. Parou de ler. Decidiu, pois, observar discretamente Rivaldo em sua diversão. Olhava atentamente cada salto, cada giro, cada queda. Começou então a refletir sobre aquela atitude do irmão de golpear o ar, de falar com o ar. “Será que meu irmãozinho está endoidando?”. Não sabia. Pensou em falar ao garoto para ele deixar de fazer aquilo, mas hesitou. Não quis interromper o que, para Rivaldo, era uma brincadeira. Será que era só isso? Percebeu algo diferente naquele, algo parecia rodeá-lo, um mundo paralelo a esse em que vivemos. Sentiu-se intrigado.

O mais novo tinha doze anos. Idade na qual os seres já iniciam a busca do irreal, do fantástico, do inimaginável como forma de escapar das vilanias do real mesmo que imperceptivelmente. Fértil deveria ser o cenário, o prólogo, o enredo, o epílogo, os heróis, os vilões. Nesse universo desconhecido, podia tranqüilamente cravar macia a espada no peito do inimigo, atirar uma bala na cabeça do inimigo, suicidar-se, ressuscitar-se. Sabia que tudo era possível neste lugar. A curiosidade aguçava o devaneio de Bernardo, que despertou a vontade em saber o terreno onde Rivaldo encontrava-se. Perguntou: “Onde você está agora?”. Não teve sucesso. A resposta não veio. Estava distante. Cada vez mais o espaço metafísico o atraía. De súbito, lembrou-se de um amigo, o Lopes. Teve vida curta, contraiu uma intensa tristeza após perder a esposa. Encetou a construção de uma boneca com a qual, depois de pronta, passou a andar para cima e para baixo, quis preencher um vazio sem fronteiras. Rompeu a lembrança. Contudo, o imã da loucura o tragava com força máxima. A sensação de escapar da realidade tão caótica, tão suja e rotineira aproximava-se.

Era muito racional. Bernardo não aceitava nada que estivesse fora da realidade. Por isso iniciou uma luta com suas cismas. Sai, sai! Parou um instante, olhos cerrados. Não queria pensar. Entretanto, não adiantava. Quando pensava em não pensar, já pensava. Lembrava involuntariamente de lugares, de pessoas, de brigas, de brincadeiras, de zombarias. Às vezes, uma música vinha e martelava em sua cabeça sem conseguir parar. “Vai soldado, ataque-o, sua guarda está baixa, vai, vai!”. Bernardo assustou-se: “Pára Rivaldo, tá doido menino”. Este não ligava. “Takamura, não faça isso”. Agora sabia onde o irmão estava: era no Japão. Gostava da cultura deste país. A batalha contra o irreal deixava-o fraco, perdia aos poucos, estava prestes a render-se. Seu comportamento maduro de vinte anos resistia e procurava resguardar a enfraquecida razão. A infância reclamava liberdade, chorava, era sufocada dentro da sua inevitável prisão: a adolescência. Esta, porém, era forte e frágil. Bastaria uma ordem para a soltura.

Acordou caminhando no meio de um deserto, enfrentava a seca infernal, via Deus, via anjos. Iniciou uma trajetória difícil e lépida, sentia dores de felicidade. A sede apertava-lhe a garganta. Não agüentava mais. A viagem era torturante. Avistou um oásis. Enganou-se. Incontinenti, uma faca apareceu em sua frente. A razão implorava-lhe liberdade. A sua mão lentamente dirigia-se à faca, agarrou-a. Percebeu sua fragilidade no ambiente inóspito. Não conseguia criar outro melhor. Com sorriso exposto e os olhos úmidos, perfurou o coração. O sangue escorria lento, os olhos petrificavam-se. Morreu. A criança que tinha calado voltava a lacrimejar. Entrava agora num espaço em que Deus e anjos são intocáveis, invisíveis. Experimentava pela primeira vez o sabor da ressurreição ao provar um pouco do sangue, o “catchup”. "Pára Rivaldo, tá doido?!".

Flor de Lótus

on quinta-feira, 10 de julho de 2008
Lembro-me que, no primeiro ano, não tive um contato mais próximo de você devido a minha elevada e persistente timidez, que me manteve preso à visualização, apenas, sob a custódia de um amigo, já que voltara abatido de viagem triste e cansativa. Observava cada movimento seu, a maneira como balançava as pernas, o modo como caminhava, o sorriso, os lábios volvendo-se constantemente a soltar palavras. Estas eram carinhosamente recebidas pelos meus ouvidos, que vez por outra pedia para eu barrar o incessante e exaltado carretel de vocábulos.

Até então, era o que conhecia em você. Infelizmente, meu acanhamento bloqueou a porta que dava acesso a um corredor que me levaria a sua casa tão repleta de sentimentos. Na medida em que o tempo foi passando, o bloqueio foi enfraquecendo até que finalmente sucumbiu. O segundo ano foi o período de desbravamento do sombrio corredor. Por onde eu passava, iluminava com minhas sinceras brincadeiras. Pelo menos eu tentava, afinal, essa minha seriedade exacerbada... Fui descobrindo e ainda tento descobrir, aos poucos, o que a deixa feliz, o que a afligi; fui sentindo parte de suas ânsias, de suas angústias, de suas reflexões sobre a vida presente e futura. Corro, ainda hoje, incansavelmente o infindo corredor parcialmente clareado, que jamais chegará à casa, pois os seus sentimentos são nômades, inconstantes, indetermináveis.

Você, para mim, é uma flor de lótus, que nasce pura e imaculada nas primaveras orientais em águas lodosas. A sua beleza é grandiosa e será guardada cuidadosamente na minha estufa de emoções. Ter conhecido você foi, é e sempre será de elevado regozijo. Tudo o que vivi, vivo e viverei com você será majestosamente segurado e selado por mim em meu humilde baú de memórias.