Queria ter escrito este texto ontem quando chegasse a casa, mas o cansaço, a fome e o sono detiveram-me. Pode ser que, agora, as palavras não saiam em sua forma genuína e cálida. Liberá-las-ei do tormento da prisão, onde estavam a gritar e pedir, insistentemente, que eu viesse aqui e desenhasse o quadro da Quinta Cidade o quanto antes.
Bem, cá estou eu a escutar as notas musicais de John Frusciante, o canto dos pássaros; a sentir o vento frio e fresco que entra pela janela a abraçar-me; e a luz do sol a tocar-me o peito, envolvendo-me com seu acalanto apaziguador.
Neste momento, converso com o Tempo e peço-lhe que seu motorista faça o retorno na estrada da minha vida, a fim de que eu retorne às tardes do dia 14 ao dia 17, para que eu veja o estado de minh'alma naquelas dezesseis horas vividas na Quinta Cidade. A irredutibilidade do Tempo é grande e não há argumentos que o faça voltar. Resta-me, só, recorrer às lembranças guardadas e tentar extrair delas o máximo de retratos. É com base nestes que pintarei o meu quadro, o qual ficará sublimemente exposto na parede de um dos quartos da casa Sentimentos Nus.
Começo, finalmente, dizendo que, das cidades pelas quais eu e meus companheiros de viagem, Miguel e Luciana, passamos, a Quinta é a mais vistosa. Tiveram outras, mas não tanto quanto esta ao meu ver. As construções são simples, com alguns poucos prédios a carregar casos e casos; as pessoas são modestas, divertidas, alegres. Elas conseguem imprimir à seriedade do trabalho uma graciosidade única. Não havia espaço ao silêncio prolongado e chato; não havia espaço aos problemas que, normalmente, surgem nas cidades. Os meninos e meninas conseguiram tornar a lida, cuja concepção nua e crua é sacal e triste, algo ornado de um alvoroço bom, gostoso e atraente. Ah, seria maravilhoso se todas as cidades fosse como a Quinta! Sentirei saudades dos chistes, das expressões e das estórias do Idalberto, da Márcia e da Nadja. Esta chegou a contar uma que, aos ouvidos puritanos, seria considerada despudorada, suja e feia. Contudo, à população da Quinta, é a estória mais cheia de pudor deste mundo, por mais que ela contenha o pesado imperativo seguido a risca por muitos que buscam o gozo e a joia.
Acabo de achar graça do que escrevi há pouco. Não contei a estória e não irei contar. A graça não seria a mesma e é melhor que ela fique na Quinta Cidade. Quem quiser saber, tire um dia de folga, compre uma passagem e vá até lá. Não será necessário dinheiro para a compra. Bastarão a sua vontade e a sua curiosidade, se as tiver.
Além das estórias, tínhamos a
playlist do Dj. Não ponho o nome dele aqui por não saber como escrever exatamente. Dentre os cantores consagrados que nos fizeram companhia durante os quatro dias que lá passei, tinha o Renato Russo, com sua Legião Urbana a tocar e a cantar pelas ruas e travessas da Quinta, o Humberto Gessinger, com seus Engenheiros do Hawaii a construir, mediante suas canções, a Infinita Highway pela qual a equipe do TJ segue, o Zé Ramalho e outros. Conhecia muitas canções, mas desconhecia o nome destas e quem as compuseram. Se soubesse mais dos meandros da Música, teria pegue meu violão e aventuraria-me em arquitetar uma melodia singela à Quinta logo que cheguei a casa ontem.
Infelizmente, eu, o Miguel e a Luciana não somos de um cidade só. Se pudéssemos - acredito que, aqui, posso falar por eles - ficaríamos na Quinta alguns dias a mais. No entanto, precisávamos e precisamos embarcar em nosso pequeno barco e continuar nossa viagem. Durante esta, tenho feito um inventário de impressões, o qual é bem mais difícil e não há máquina nem código de barra que facilite o estudo e a observação. Por mais que eu grave, o meu sistema, às vezes, trava e as sensações da hora perdem-se, a ficar, tão somente, a vagueza do quadro metamórfico da memória, onde as palavras e imagens misturam-se e consubstanciam-se num único corpo, o meu espírito.
Meus colegas da Quinta, levá-los-ei comigo em minha memória. Caso ficasse bem mais tempo, diria: meus amigos da Quinta, levá-los-ei comigo em meu coração. De uma forma ou de outra, vocês estarão comigo.
Perguntaram-me se escrevia poesia, conto, crônica, etc. Respondi que escrevo apenas. Não penso em gênero... Escrevo. Deixo sob a responsabilidade de vocês, caso queiram, a determinação daquele.
Enquanto escrevia este texto, além do sol e do John, veio a companhia da chuva que, por alguns instantes, afastou o acalanto apaziguador e trouxe o frenetismo de seus tambores, dos quais saiam notas repletas de vida, a partir das quais os pássaros compuseram mais uma obra-prima à Natureza. Tal obra, se eles me permitirem, dedicarei a vocês, a vocês da Quinta Cidade...